A vida depois da tragédia

Madeira: um «povo superior» que soube reagir à tragédiaÉ, muito provavelmente, a expressão mais utilizada pelos madeirenses que estiveram envolvidos nas buscas de desaparecidos, nos salvamentos de pessoas presas em suas casas ou na limpeza das ruas e estabelecimentos comerciais afectadas pela enxurrada de há uma semana: «Somos mesmo um povo superior».

A força própria dos madeirenses e a vontade de reagir para reconstruir a ilha

27/02/2010

A força própria dos madeirenses e a vontade de reagir para reconstruir a ilha

Também dizem que são portugueses de alma e coração e não de segunda, agradecendo toda a solidariedade que tem vindo do continente. Aliás, parece em desuso a expressão «cubano», que era normalmente utilizada para caracterizar uma certa atitude superior dos continentais que visitavam a ilha. Tudo isso parece ter desaparecido e a próprio respeito de todo o país pela maneira muito própria de ser dos madeirenses é uma evidência.
Madeira: noite calma apesar dos alertas


Há precisamente uma semana, num sábado chuvoso que não convidava a andar na rua, 42 pessoas morriam, arrastadas pela chuva, pela lama e pelo entulho que seguiu serra abaixo, só parando nas ribeiras ou no mar. Hoje, o luto foi cumprido e a ilha não está tão destruída. As estradas estão desimpedidas, já é possível chegar ao Curral das Freiras de autocarro e a Baixa do Funchal tem muitas das suas ruas praticamente imaculadas. Só a zona do Mercado dos Lavradores carece de uma intervenção mais prolongada.

Caridade e voluntários

No quartel da Nazaré, o Regimento de Guarnição nº3, continuam a chegar mantimentos, trazidos por anónimos ou por associações. A Caritas, em articulação com os escuteiros e os militares, distribui a comida pelas centenas de desalojados que ali se encontram. Alguns foram sendo realojados, mas não nas suas casas, que foram totalmente destruídas. A Caritas pede, agora, móveis e pequenos electrodomésticos, para ajudar esta gente a recuperar as suas vidas.

Passada uma semana da tragédia, continuam a chegar voluntários, mas, pelo menos aqui, já não há espaço para mais ninguém. As pessoas são encaminhadas para a Casa do Voluntário, onde se inscreveram centenas de cidadãos anónimos, que procuram um local onde possam ser úteis.

Muito trabalho há pela frente. A reconstrução da Baixa, o reordenamento do território em vários locais do sul da ilha, nomeadamente nas zonas altas, onde houve um maior número de derrocadas. O Governo Regional, em coordenação com as Câmaras Municipais, e a ajuda monetária do Governo da República e da União Europeia, terá de assumir as rédeas da recuperação.
Mas, haverá sempre quem queira regressar aos locais de vista perfeita, quase sempre no leito dos ribeiros. «Também por isso somos portugueses como todos os outros. Temos memória muito curta», desabafava um dos muitos militares, madeirense de adopção, e triatleta nos tempos livres.
A vida continua. Os avisos que levaram muita gente a recolher mais cedo para casa na sexta-feira à noite não passaram de uma demonstração de receio e tudo aponta para que na segunda-feira a Madeira volte à normalidade, entrando numa segunda fase de reacção a esta tragédia, com a decisiva reconstrução da ilha.










O DIA DEPOIS PARA AS CRIANÇAS
27/02/2010
No regresso à escola, há psicólogos a aguardar pelas crianças que viveram a tragédia provocada pelo aluvião. Algumas já têm aulas, mas a maioria só regressará segunda-feira. Até lá, os pais evitam que a destruição generalizada que os rodeia e a morte de amigos e familiares possam causar traumas que marquem os filhos para sempre face ao que observam. Aos mais novos é fácil, aos que entram na adolescência não
Os heróis virtuais desapareceram da vista das crianças da Madeira na manhã de sábado passado porque não houve tempo para ligar a televisão ou iniciar consolas. O dilúvio que caía das nuvens gigantescas que cobriram a ilha substituiu-se às aventuras dos desenhos animados e aos níveis dos jogos, só que desta vez a acção era mesmo de verdade.
A "nuvem" com quilómetros de altura e de comprimento que despejava milhões de litros de chuva era mais violenta que qualquer cenário dos jogos ou série de televisão e em vez de as armas que matam os opositores ou as corridas de carros em grande velocidade serem falsas, era essa a realidade e a verdade.
Havia corpos a tombar e carros a serem arrastados pela força de um trovão de água que descia as encostas e entrava nas suas vidas, obrigando as crianças da Madeira a serem os seus próprios heróis.
Foi meia dúzia de horas que fez de bastantes adultos crianças e de muitas crianças adultos. Se tiveram o benefício sempre sonhado pelas crianças de ver as escolas serem fechadas por um motivo inesperado, a maioria nunca teria desejado que fosse esta a razão de férias inesperadas.
Porquê? A resposta é simples: tiveram muito medo e viram a morte de perto. E para alguns, como Fabrício, a morte passou mesmo pela sua vida para lhe levar o colega Ezequiel, que morava no Pomar da Rocha. Aos dez anos diz, por vontade própria e longe de qualquer olhar adulto, que "preferia ter escola" para poder continuar a brincar com aquele menino, mas, como está de férias forçadas, a distracção foi vir com o pai ajudar na limpeza da Ribeira Brava. Enquanto espera pelo pai, ajuda a regular o trânsito. Está sentado no passeio entre os intervalos a que cada camião carregado de lama e pedregulhos passa e é preciso que ele retire os pinos que proíbem a circulação de viaturas.
Conta a sua história enquanto limpa a crosta de lama que tem colada às palmas das mãos e revela um pensamento positivo e um negativo. O primeiro: "Acredito que vá ficar tudo igual ao que era antes." O segundo: "Não quis saber se há mais algum colega morto." Porquê? "Porque não quero saber!" E não se arranca mais uma palavra de Fabrício, enquanto esconde as mãos sujas dentro do colete amarelo das obras. Quando o pai vem ver quem está perto dele, conta a história do que lhes aconteceu. Olha para a foz da ribeira e diz que devem estar ali corpos afogados debaixo do lixo que veio das montanhas e flutua num choque constante de troncos.
Na foz da ribeira está um jovem com uma vassoura na mão. Hugo é mais velho que Fabrício quatro anos e fala mais à vontade, até ao momento em que a conversa incide sobre os mortos e muda logo de tema. Conta que tem estado a ajudar na limpeza do adro da igreja; relata que há lá mais de meio metro de lama a cobrir o chão e só pára quando os elementos da Polícia Marítima se enfiam nas águas do mar para retirar um porco morto que está a boiar entre o que foi arrastado e o trazem para perto de outro suíno. Aí, olha para o lado esquerdo e aponta para a povoação perto: "Na Tabua há muitos corpos desaparecidos." Um pouco depois, olha para a frente e diz: "Na Serra D'Água foram arrastadas muitas casas com pessoas dentro." Acrescenta ainda: "Nunca houve isto, é a primeira vez."
Hugo estava a dormir e quando acordou já o filme ia a meio e a ribeira bastante alta: "Comecei a ficar nervoso e vim ajudar as pessoas." No meio de tanto caos que ronda a foz da ribeira, não se estranha quando Hugo afirma: "Encontraram pessoas sem braços e pernas e vi uma mão [decepada] com um anel no dedo." Antes de voltar para a limpeza do adro, chega um amigo que empunha o telemóvel na direcção do trabalho da polícia. Está a filmar a retirada do porco e pensa colocar a cena no YouTube...
Helena e António João trouxeram o sobrinho até ao cenário desolado da Ribeira Brava. Estão a ver o que se passa enquanto fazem tempo para ir almoçar. Rafael olha para todos os lados mas não comenta o aluvião, só diz que ficou preocupado quando viu que tinha "uma piscina à porta" e ouviu gritos e viu as pessoas a fugir: "Pensei nos meus amigos." A partir daí, distancia-se e não participa da conversa.
A tia acha que ele ficou com medo e considera que "se os grandes fugiram, quanto mais os pequenos". Não duvida de que foi uma "coisa para ele não esquecer tão cedo" e que vai ficar "bastante marcado". O tio acrescenta que ao acordar não entendeu o que estava a passar-se. Dois dias depois, já tem uma ideia mais clara, e, encostado na grade que separa a Ribeira Brava do mar, observa o que se passa ao seu redor. Há quem aproveite troncos inteiros e toros de madeira para reconstruir o que perdeu retirando-os do lugar onde se amontoam toneladas de detritos que vieram na enxurrada e que empurraram o mar lá para bem longe. Alguns turistas aproximam-se para fixar o momento e, também, para compreender a amplitude do fenómeno meteorológico que lhes poderia ter estragado as férias na Pérola do Atlântico.
As pessoas olham e distraem-se assim. Não há mais nada para fazer se não quiserem ajudar quem sofreu com a tragédia. Não se podem comprar revistas porque de tanta lama nem se vê a capa onde aparecia a notícia de que a actriz Alexandra Lencastre estava a viver uma tragédia emocional com a sua separação. Se se sentarem na esplanada, ficam com os sapatos enfiados uns dez centímetros na lama e se desejarem oferecer um bouquet de flores só o podem adquirir com muita terra junto. Os móveis Estrelícia e os Correios estão bloqueados e o parque infantil, afogado na mesma barreira de lama.
Na única pastelaria que escapou à onda de lameiro que desceu a encosta, as empregadas esperam por clientes. A vitrina tem bolos bem coloridos e com sabor a chocolate e manga e outros com desenhos próprios para festas de aniversário. Há um bolo que é como um quadro: está coberto com prado verde e abetos, uma estrada por onde passa uma mota e dois cavalos. Um cenário paradisíaco cuja inspiração do pasteleiro só pode ser remetida para a região da Ribeira Brava antes daquele sábado… Agora, a ponte que dava passagem sobre a ribeira está quase destruída e um polícia afasta os que passeiam das proximidades para evitar mais desastres pessoais. O agente mora na Serra D'Água e diz que "aquilo está tudo devastado". Perante o caos que o cerca, acaba a dizer: "Tanta briga pelas Finanças Regionais e agora estamos assim." Encolhe os ombros e conclui: "Agora, é ir para a frente."
Fazer o que este polícia diz - "ir para a frente" -, imaginando que se referia a seguir o caminho para a encosta, não é fácil. Anda-se um pouco de carro, mas umas centenas de metros à frente, na zona da Meia Légua, a destruição é tão gigantesca que é proibido circular sem ser a pé e só o podem fazer moradores ou elementos das brigadas de apoio. As obras do regime contrastam com a natureza destroçada e, quando se olha para as ex-casas desabadas e os grandes pavilhões que resistiram às águas, a comparação impressiona. No complexo desportivo da localidade, há um estádio polidesportivo que está coberto de lama a toda a sua extensão. Não há relva, existe um lago rectangular de massa inconsistente castanha de onde emergem toros e pedras gigantes. Na parte solidificada da lama, estão rastos de pessoas e de um cão que busca entre os corpos que andam perdidos neste canto da ilha. O cocker spaniel procura e encontra um homem que estava submerso e encostado às redes da baliza onde ficou preso. Alguém diz que falta encontrar um pedaço da sua perna, uma afirmação que já não choca ninguém mas que é das que é preciso evitar que as crianças da Madeira ouçam ou vejam.
Mónica é um destes casos, a quem os pais obrigam a olhar para o lado quando o desastre é humano, o que não podem fazer se for natural, ou seria preciso colocar-lhe uma venda. Com cinco anos, a menina estava em casa dos avós enquanto os pais ficavam isolados pelo córrego na sua, desesperados pelo que estaria a passar-se com a filha. Mónica não larga o sortido de bolachas com chocolate enquanto molha os pés na corrente que desliza pela estrada destruída e se lembra de uma coisa para dizer: "A água estava toda a descer e eu já tinha saudades da minha mãe e do meu pai." Há outra recordação: "Perdi um pato e a chucha de quando era pequena."
Para os pais, as lembranças são mais reais. Paulo César, nascido no Porto, garante que "assim já não dá gosto viver na Madeira". Licínia, nascida ali, acha "que isto nunca mais voltará a acontecer". Mónica pode estar distraída agora mas os pais contam, enquanto a menina se afasta, o que aconteceu quando se reencontraram: "Ela começou a chorar e nós também. Sentimos um grande alívio." Quando regressa para o pé dos pais - agora ninguém quer ficar afastado um minuto sequer dos seus -, Mónica fala de não ter escola e lamenta não poder estar a brincar com o primo Filipe. Para o ano vai para o primeiro ano.
Entre as perdas está o carro da família, sobre o qual caiu primeiro uma grande pedra e que logo foi arrastado pela ribeira descontrolada. A casa ficou a salvo, mas o mesmo não aconteceu a um vizinho, que só agradece estar vivo: "A água passava por cima da nossa casa e fugimos para o lugar do Campanário." Também o carro do vizinho desapareceu debaixo da terra que o cobriu, como aconteceu a muitos automóveis por ali. Há visões de carros para todos os gostos: enfaixados em muros, de rodas para o ar, no meio da ribeira, arrastados centenas de metros, cheios de lama ou reduzidos a meio metro de altura, como se tivessem sido comprimidos por uma prensa.
Enquanto Mónica e os pais ficam para trás, não se pode dizer que o cenário de devastação se torna monótono, mas que não varia muito, isso não. Há sempre algo que espanta ter acontecido e, se passa um rosto assustado que surpreende, rapidamente passará outro ainda mais receoso; restos de casas no leito pedregoso e a dezenas de metros de onde foram construídas e situações para, no mínimo, maiores de 18 anos. Por isso é que quando os pais da menina de cinco anos relataram o reencontro preferiram que ela estivesse a três ou quatro metros de distância para não ouvir a conversa. "Temos medo que ela continue a sonhar com o que aconteceu."
Não é por acaso que há psicólogos a visitar as zonas atingidas e que muitos adultos já partilharam o terror vivido. Esse terror continua visível e uma mesa posta numa varanda abandonada mostra como a vida humana parou por ali desde sábado. A ausência de animais é coisa que se nota também e vem-se a saber que a maioria da criação foi soterrada ou arrastada. Só raramente se vê um cão, e sempre coberto de lama. Nem um gato!
Antes de chegar ao Lugar do Passal, ainda se vai sujar muito das calças e enterrar as botas em lama, ora espessa ora aguada. Há um pai que traz a filha às cavalitas enquanto desce a rua e um casal a comer sobre o porta-bagagem de um carro vermelho. Pão e queijo em triângulos é a ementa que foi distribuída pelo Urubus, um destacamento da Companhia de Comando e Apoio do RG3, que percorre a zona e distribui rações de comida e água potável retiradas das mochilas que lhes vergam as costas. Os militares, polícias e outras autoridades ou membros de equipas de resgate não abrem a boca quando se lhes faz uma pergunta - ordens superiores, justificam - mas um deles acaba por fazê-lo: "Ali para cima é que a esperança se foi toda embora."
Vai ser aí que encontraremos Vítor, mas até lá há que penar um pouco, ou não tivesse o Urubu do RG3 falado verdade. A estrada desapareceu do meio dos escoramentos, é apenas um grande buraco onde uma caterpilar tenta reforçar as fundações antes que caia mesmo tudo. O trabalho incansável destes homens e mulheres que recuperam as infra--estruturas é o único alento para os que perderam tudo, absorvidos a retirar pedras, encarrapitados sobre os postes que ficaram de pé ou de pás e enxadas na mão. Vestem fatos de plástico para se protegerem da chuva que continua a cair e raros são os que falam uns com os outros - resta-lhes o convívio com os seus pensamentos. Ao longo do caminho, há pessoas desesperadas que olham para os milhares de litros de lama dentro de casa, outras que a atiram janela fora e uma que olha para as escadas que iam dar à sua habitação e que agora não desembocam em porta alguma.
Nem o bar onde se podia beber a tradicional poncha se salvou, nem os turistas passam por ali ou os autocarros da Rodoeste circulam. João Calheta está entregue a si próprio e aproveita a passagem de alguém que o quer ouvir para recordar os aperitivos e a poncha que servia na varanda do bar virada para a ribeira.
Ali perto, a paisagem de destruição será realmente pior, conforme tinham avisado, e, aos nove anos, Vítor nunca pensava perder os seus jogos para a PlayStation e o computador Magalhães de um momento para o outro. Também nunca imaginou que o córrego para onde atirava pedras para assustar os sapos e apanhá-los mais facilmente para um balde fosse capaz de ser tão violento. Jamais achou que o dinheiro que andou a amealhar - já ia em 129 euros - fosse ribeira abaixo. Nem a irmã, Tânia, de 17 anos, pensou alguma vez lamentar tanto perder os apontamentos dos seus estudos e o computador.
Os pais estão inconsoláveis por tudo o que perderam e nem o desejo de Vítor em recuperar o seu mealheiro para ajudar à reconstrução da casa serviria para alguma coisa. O que se vê do que foi o lar desta família é indescritível, uma casa que caiu para dentro do leito da ribeira. Assim mesmo, toda inteirinha e tão tombada que quem já lá entrou até ficou com tonturas de tanta inclinação que tem a antiga moradia que ficava a muitos metros da água. Só se tem uma ideia do que era a casa de Ernesto e Fátima quando mostram uma fotografia . Com a violência da enxurrada, o leito mudou e entrou directamente pelas fundações da casa. A sorte foi que tinham ido à vila fazer a revisão do carro e estavam ausentes e descansados até receberem um telefonema a avisar do acontecido. Só que jamais imaginaram que a casa tivesse andado por inteiro para outro sítio quando a voltaram a ver.
Vítor diz que foi uma sorte a sua casa estar no caminho do mar de lama que corroeu as fundações, porque assim salvaram as que estavam a seguir. Aponta para o seu quarto e diz que era ali que tinha tudo. A irmã faz o mesmo. Olhamos e o que chama à atenção é a um quadro que está ainda pendurado na parede e que balança conforme o vento lhe dá. A única coisa que poderão retirar da casa - que deverá ser demolida em breve - é o que está no sótão. A mãe garante que, se conseguir recuperar o álbum com as fotografias do dia do casamento, já se dá por satisfeita: "Era a casa dos meus sonhos, e agora não temos nada." Na fotografia aérea, vê-se bem a razão do seu lamento e porque é que o marido nem quer falar sobre a perda: era grande e bonita. À entrada tinha desenhada uma rosa-dos-ventos - 'era o que estava na moda naquela altura', diz Fátima -, há uns fetos grandes que davam sombra… Descreve a casa caída no ribeiro, apontando cada pormenor na foto do terraço traseiro que ficou intacto, onde se fizeram churrascos até sábado. Vítor diz que vai ter saudades do Passal e dos seus amigos, porque os pais já não querem continuar a viver ali.
A mãe, enquanto ele não chegava, contou que o marido viu o filho a chorar e que de vez em quando apanham a criança a olhar de longe para a casa. Vítor é vivaço e não lhe falta o dom da palavra para contar como era a vida e a da família naquele lugar. É sincero e parece mais adulto quando diz: "O meu pai trabalhou tanto ao fazer a casa e foi tudo para nada." É tudo passado para o Vítor, quando acrescenta: "Gostava tanto de viver aqui." Basta olhar para a casa e fica-se com a certeza de que as crianças falam sempre verdade. Antes de se continuar caminho, ainda se vêem algumas mulheres com velas de pagar promessas na mão. Como estão ao lado da igreja, pensa-se que é para agradecer a intervenção divina, mas a resposta é mais terrena: "Não temos luz."
A Ribeira Brava foi palco principal para a força dos elementos, mas a tragédia espalha-se por muitos outros lugares. No Curral das Freiras, também há muita pedra caída das altas escarpas, terra que veio por ali abaixo e muita, muita lama que matou uma mulher e, até agora, fez desaparecer um homem. Joana tem 13 anos e ficou de um momento para o outro sem mãe. A palidez do rosto confirma a dor da perda e o silêncio perante um início de conversa mostra que não há espaço para tal. Joana não está só, dezenas de raparigas e rapazes acompanham-na no funeral, cuja campa fica virada para a casa onde viveu. As amigas choram sem problema enquanto os amigos assumem um rosto tenso e perto das lágrimas.
A caminhada até à igreja é feita sob pesado silêncio, a missa evoca a mãe e a despedida é emocionada. Até demasiada para alguns, que não resistem assistir às pazadas de terra que cobrem o caixão. Quando tudo acaba, a chuva que assustou no sábado regressa forte e o medo também. As pessoas olham para cima e esperam que seja mais do mesmo, nada de tempestades como a que marcou tantos.
Até porque nem todos estão de luto no Curral das Freiras, mesmo que ainda haja um homem desaparecido que ninguém consegue descobrir por mais que se procure ou os cães pisteiros busquem o corpo. A mãe não acredita numa surpresa, ninguém crê na possibilidade ao fim de cem horas.
A mãe só diz que o filho lhe faz falta, que Gregório era solteiro, tinha três irmãos e 32 anos. Quando se soube da notícia do seu desaparecimento, houve uma pessoa que se lembrou dele e que foi revolver as arcas para o reencontrar a seu modo. Era a professora da primária, Maria Bernardete, que se lembrava de Gregório menino e tinha uma composição escrita a 5 de Fevereiro de 1988, quando o aluno tinha dez anos. O tema era sobre o que queria ser em grande, e o sonho era grandioso: "Queria ser presidente da República."
Júlio, que tem mais dois anos do que Gregório na altura da redacção, é sobrinho do desaparecido. Anda por ali e acaba por falar do momento que viveu: "Água e pedras, é só do que eu me lembro." Vê-se que não quer tocar no assunto e o pai pede para não se insistir. Já antes autorizara a conversa "desde que ele não se magoe", porque não o quer ver sair mais traumatizado desta tragédia. Fala do filho em termos especiais e recorda que estava ausente no momento em que Júlio "foi o herói da casa". Pegou na vassoura, e limpou a lama, e pôs toalhas nas frestas da porta para nada entrar. Está sem aulas e ainda não sabe quando é que a escola reabrirá.
O filho de Sónia é muito novo para saber o que se passou, mas a mãe não o larga mesmo estando a trabalhar. Berardo não se separa dos seus brinquedos preferidos, um carro de bombeiros e uma caterpilar. Dois brinquedos que passam em tamanho real ali à porta várias vezes ao dia no vaivém de desimpedir estradas e salvar pessoas. Da avó de Berardo só se soube dois dias depois, porque o Curral das Freiras esteve isolado muitas horas do resto da ilha. No entretanto, as pessoas do local ficaram por sua conta e pelo que a natureza decidisse fazer. Já ninguém estava habituado a ficar sem luz ou telefone e, quando a mãe, Sónia, diz "Não morremos mas passámos um mau bocado", esse é apenas um pequeno detalhe de uma história de terror que as altas montanhas que os separam do resto do mundo provocou. Dali onde está Berardo a brincar, a vista é bonita apesar do nevoeiro que esconde as aldeias mais longe. Os turistas vão muito ali, mas naqueles dias todos os passeios foram cancelados e ninguém levou um bolo de castanha ou comprou uma garrafa de licor, feito de muitos frutos e para garantir aceitação em todos os paladares.
Como se dizia no princípio, foram meia dúzia de horas que fizeram de bastantes adultos crianças e de muitas crianças adultos. Todos têm medo de uma repetição e as previsões para a madrugada que acabou assustavam pais e filhos. Os pais ocultam dos filhos que poderá chover como na madrugada do sábado passado e escondem muitos outros factos da vida que não querem que eles saibam. Quando falamos com as crianças, é preciso ter muito cuidado, porque foram heróis à força e o que lhes ficou no íntimo despertará a cada nuvem que fique mais tempo do que o habitual sobre a ilha. Foram crianças que passaram por uma devastação nunca vista na Madeira e que os pais querem que seja rapidamente esquecida. Se para uns é tema tabu, para uns poucos é chuva que já não molha.
Mas também há boas notícias. Entre a conversa com o Vítor e ontem, foi-lhe oferecido um novo mealheiro. Lá dentro, estavam os 129 euros que o córrego levou na sua pressa. E também lhe deram um novo Magalhães.


Bocado de pão para cinco27/02/2010Na Rua de Santa Maria, berço do Funchal, habitantes queixam-se de que foram esquecidos e passaram fome
A Rua de Santa Maria, a primeira rua do Funchal, tem lama pelas costuras. A mítica zona de pescadores, prostitutas e marinheiros, comerciantes e artistas, perdeu o charme há muito tempo. Os prédios estão degradados e a recuperação imobiliária é lenta. Cada vez há menos pessoas a morar por aqui. Ontem de manhã, sete dias depois da catástrofe, ainda se vivia em lágrimas a desgraça que lhes bateu literalmente à porta.
"Fomos muito esquecidos. Compreendo que havia muitas frentes para acudir, mas ficámos sozinhos, praticamente sem comer, durante três dias. Sem água nem luz. Não conseguíamos sair de casa. Havia dois metros de lama. Tapou-nos a porta e ficámos encurralados." O relato de Maria da Graça, 58 anos, é interrompido porque as equipas de rua limpam o lixo amontoado.
A água lamacenta ainda corria, e a lama continuava a dificultar a passagem. Mal sabíamos que quatro horas depois a rua estaria praticamente limpa, como se tivesse havido um milagre, a exemplo do que acontece em praticamente toda a cidade. Só que, naquele momento, e apesar de reconhecer o esforço das equipas de rua, a preocupação de Maria tinha um nome: comida. "De sábado a segunda-feira, eu só tinha em casa bolachas e um bocado de pão para dar ao meu marido, filho e nora, ambos desempregados, mais um neto de um ano." Maria leva as mãos à cara e derrama o choro.
Esta é uma rua de armazéns onde nada ficou em stock. Toneladas de produtos de limpeza, bebidas, sapatos, malas, chocolates, sacos enormes com amendoim misturam-se com embalagens de veneno para ratos, uma substância química altamente tóxica e mortal. Por ali rondavam alguns sem-abrigo, como o Bruno, que tentavam retirar o que "ainda estava bom para comer. Isto está dentro de prazo, é só limpar".
Na porta ao lado, Maria de Fátima, de 69 anos, repete vezes sem conta que precisa de ir ao hospital, sente-se mal, não dorme. Nesta azáfama de limpezas, há perigos à espreita. Uma adufa aberta sem protecção por pouco não provoca um acidente. Valeu os reflexos de um dos muitos voluntários que por ali estão, desde escuteiros a vigilantes da natureza do parque natural da Madeira.
Romana Góis aparece à soleira da porta com as mãos trémulas. As queixas são as mesmas. "Havia quase dois metros de altura de terra. Sou doente oncológica e preciso de medicamentos e tenho de arranjar alguém que os vá comprar. A farmácia mais próxima ficou soterrada. Estou há oito dias fechada", afirma.
Vizinha do restaurante Jacquet, totalmente destruído, o mesmo acontecendo à sede do Marítimo, e a todo o comércio daquela artéria, Maria José, de 47 anos, chama-nos para vermos onde mora.
Não é muito fácil descrever as condições. É um pátio interior sem condições de habitabilidade, e não era preciso a catástrofe para perceber que ninguém pode viver aqui. Muito menos seis pessoas em dois quartos. " Ficámos aqui, sem comida. Vieram ontem dar- -nos dois papo-secos, manteiga e um pacote de queijo. Quero que a minha filha grávida vá para casa da sogra." Mas, no meio da desgraça, o milagre aconteceu. Três horas depois, a rua estava limpa.